Existe um percurso na vida, íntimo, que só a gente sabe, quando a gente o faz. Algo sobre a construção de si, de identidade confundida com personalidade, com uma mistura de sonhos e expectativas - uma pitada de frustrações, traumas e experiências vividas. A incrível e irremediável construção do eu, que se dá através do mergulho – ultrapassar as superfícies, a luz, as paredes, as histórias, a bagagem familiar; dar um salto entre a mesa de jantar da casa onde você nasceu e a epigenética para se descobrir só, no mundo, para encontrar aquilo que você sequer sabia que estava procurando, para se perceber em si, seu próprio templo, sua própria casa-morada. Um punhado de argila fundida em areia aglutinada com sua história, pedaço de uma parede que hoje não é mais: reconstruir em si o trajeto, as risadas enquanto se prepara o café, o vão entre as panelas dentro do armário debaixo da pia, o reflexo do sol batendo no vidro enquanto rega as plantas de cima da geladeira. Perceber em si as lascas do tempo, o resquício de cimento daquilo que já não existe mais, as marcas da digital impressas no reflexo luminoso – de novo, um eu que se encontra só, contemplando a vida no banquinho estreito entre a fruteira e o aroma do abacaxi quase podre esperando ser consumido: caber, totalmente dentro de sua hoje-própria história; finalmente se entregar àquilo que é só seu, o eu. 

série resquícios | azulejo antigo + papel + pigmentou dourado | moldura caixa

You may also like

Back to Top