mas é que era isso, ela sorria demais. sorria para as pessoas desconhecidas, sorria para quem lhe atendia. sorria como criança sorri quando ganha sorvete de manhã. é, ela sorria porque aquele era seu jeito de ser. sorria porque ao sorrir, se amortecia. é que quando se é gente demais, fica difícil sorrir e ser ao mesmo tempo. porque viver é difícil e ela descobriu isso desde muito nova. tinha trauma do telefone que tocavatocavatocava insistentemente sem parar porque dentro daquele telefone morava aquela outra pessoa que o levara. o telefone era cinza, com disco de rodar amarelo-transparente-velho surrado do tempo. ele tocava e ela se escpndia. foi assim que se tornou dependente do sentido de sentir porque naquele instante em que ele atendia aquele telefone era como se ela se perdesse. mas acontece que quem ligava era ela, não era, era ele. ele atendia e as conversas duravam horas e horas e horas. mas pode ser que fossem somente minutos, mas acontece que para ela no seu pensamento e no pesar do seu coração, duravam horas. ela assistia a ruína da vida acontecer bem na sua frente. ele fingia que não a via. ela fingia que dormia, ou que brincava de boneca - qualquer coisa que parecesse trivial para disfarçar o que sentia. ela disfarçava com seu sorriso. era isso porque você sorri demais e a culpa é sua. ninguém mandou você sorrir tanto, ela disse. nesse momento ele já estava longe. ele já não era nada além dos traumas instalados na pele daquilo que um dia chamou de filha. ele era também um crucifixo de hematita com continhas transparentes. ele era uma caixinha cheia de lápis. era um vazio e era também um dinheiro numa conta bancária todo mês mas o problema era ela. porque ela sorri demais. 

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